Pioneira na América Latina na reciclagem de painéis solares, a SunR entendeu o potencial de um mercado em ascensão que vai precisar descartar parte do material
Neofeed - Karina Pastore Karina Pastore - 11/08/23 15:52
Empresa brasileira quer capturar as placas de energia solar que viram lixo
O mercado global de reaproveitamento de painéis solares foi avaliado em US$ 97,8 milhões em 2022
Segunda principal fonte de eletricidade do mundo, atrás apenas da hidrelétrica, a energia solar cresce na "velocidade da luz". Globalmente, desde 2011, a capacidade instalada saltou de 62,42 gigawatt-hora (GWh) para quase 1 terawatt-hora (TWh) –um aumento de mais de 1.500%.
Toda essa energia é captada por cerca de 2,5 bilhões de painéis fotovoltaicos, espalhados pelo planeta. Como os módulos não duram para sempre, a humanidade se vê às voltas com um novo (e valioso) tipo de lixo.
Na década de 2030, o volume de placas descartadas deve ficar entre 1,7 milhão e 8 milhões de toneladas anuais. E, em 2050, atingir 78 milhões de toneladas, nos cálculos da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês).
Compostos 90% por alumínio e vidro, além de materiais valiosos, como prata, cobre, estanho e silício, os módulos têm alto valor agregado. Com 96% de eficiência na reciclagem, as placas fotovoltaicas podem se transformar em um ótimo negócio.
O mercado global de reaproveitamento de painéis solares foi avaliado em US$ 97,8 milhões, em 2022, pelos analistas da consultoria inglesa Visiongain. Até 2029, deve atingir US$ 215,6 milhões, a uma taxa de crescimento anual composta de 12%, no período.
Como a vida útil dos modelos disponíveis atualmente varia de 25 a 30 anos, o paulista Leonardo Gianini Duarte imaginou ter algum tempo pela frente, quando decidiu se aventurar na reciclagem fotovoltaica - ainda durante o curso de engenharia de produção, na Universidade Federal de Santa Catarina, concluído em 2020.
Se há três anos a atividade era recente na Europa, berço do reaproveitamento dos módulos; imagine no Brasil... ele poderia pensar com calma na futura empresa. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que a hora era agora.
“O mercado de reciclagem não está atrelado 100% ao fim de vida útil dos painéis”, conta o engenheiro ao NeoFeed. “Cerca de 7% dos painéis têm morte prematura, antes dos 15 anos de instalação.” Alguns se perdem no transporte, instalação e manutenção. E, outros tantos, em acidentes naturais.
Por falta de políticas públicas, quando não são descartadas como lixo, nos aterros sanitários, muitas placas são enviadas para outros países, onde recebem o tratamento adequado. Não havia tempo a perder. Então, em janeiro de 2020, Duarte fundou a SunR, a primeira empresa de reciclagem fotovoltaica da América Latina.
Desde então, a empresa já processou 750 toneladas de painéis, vindos de todos os cantos do país. Entre 2021 e 2022, o volume de material cresceu 400%. E, no ano passado, 700%. “Fecharemos 2023, com uma quantidade ainda maior”, prevê o CEO, de 27 anos. “O mercado está supervalidado.”
Brilho na estrada
Com parceiros espalhados pelo país, a SunR faz a coleta dos módulos e os leva para um galpão de dois mil metros quadrados em Valinhos, no interior de São Paulo. Lá, graças a uma tecnologia desenvolvida pela equipe de Duarte, os painéis são processados.
“Não cobramos pelo serviço de coleta e transporte; só fazemos o repasse do custo logístico para o cliente”, explica o engenheiro. “Nossa fonte de receita é 100% na venda dos materiais”, completa, sem revelar valores.
SunR reciclagem painel solar
Na SunR, os painéis são desmontados e os resíduos, processados em containers
Depois da retirada do alumínio (a etapa mais fácil do processo), os painéis são triturados. Os resíduos, então, passam por processos mecânicos de separação, conforme suas densidades e constituições. Cada um dos materiais é encaminhado para indústrias diferentes. “Nosso foco não é só vender, mas dar a esses materiais a melhor destinação possível”, garante o CEO da SunR.
O alumínio, diz Duarte, vai direto para fundição e viram esquadrias de portas e janelas, por exemplo. Transparente e sem ferro, o vidro fotovoltaico se distingue da maioria dos resíduos do gênero e tem um fim curioso.
Transformados em microesferas, os cacos são incorporados à tinta, usada para sinalização rodoviária. “Aquelas marcações no asfalto, que refletem o farol dos carros, são feitas com esse vidro”, diz Duarte. “A indústria é muito carente desse material.” Por fim, a mistura metálica é vendida para empresas interessadas em fazer a extração química. Apesar de ser o material mais valioso, é encontrado em quantidades muito pequenas.
Reciclagem móvel
Pensando no aumento da procura pela reciclagem fotovoltaica, o engenheiro montou o maquinário da empresa em containers. Quando houver demanda, a ideia é colocar essas caixas gigantes em cima de caminhões e levar a SunR até os locais de coleta e fazer o processamento lá mesmo. Com isso, evita-se o envio dos resíduos até Valinhos, barateando os custos da operação e diminuindo a pegada de carbono inerente ao transporte.
Conforme estudos conduzidos por especialistas da Irena, os materiais recuperados podem movimentar US$ 450 milhões, daqui a sete anos. Em 2050, o valor da reciclagem deve bater US$ 15 bilhões. Dinheiro suficiente, segundo a agência, para produzir 2 bilhões de módulos fotovoltaicos.
Ao contrário dos países nos quais a reciclagem já está bem estruturada, no Brasil, painel solar ainda não volta a ser painel solar. O motivo? Das 2 milhões de placas instaladas aqui, 96,5% são importadas. A maioria veio da China, dona de 75% da produção mundial.
Mas, como o resto do mundo, o mercado nacional está em rápida ascensão. A capacidade instalada foi de 2 GWh, em 2012, para os atuais 32 GWh. O futuro fotovoltaico está apenas começando.
Tags desta matéria
#ABRERPI
#BRASIL
#RECICLAGEM
#ASFALTO-BORRACHA