Área que receberá a futura unidade, que foi decretada como de utilidade pública, fica próxima da atual; investimento previsto é da ordem de R$ 13,5 milhões
Edimarcio A. Monteiro/[email protected]/01/2026 às 12:41. - Atualizado em 13/01/2026 às 14:04
Os equipamentos usados pela atual URM serão transferidos para a nova unidade; capacidade é de beneficiar cerca 6,5 mil toneladas de resíduos de construção civil por mês (Kamá Ribeiro)
A Prefeitura de Campinas investirá em torno de R$ 13,5 milhões para implantação de nova Usina de Reciclagem de Materiais (URM) de construção civil. Ela substituirá a atual unidade, instalada há 30 anos e que foi a primeira a pioneira no Estado de São Paulo e cuja vida útil vai até julho próximo. A Administração declarou ontem de utilidade pública uma gleba para fins de desapropriação, que fica ao lado da usina já existente. A previsão é que a nova estrutura entre em operação até agosto. As áreas a serem utilizadas estão relacionadas no decreto nº 24.238, publicada na edição de ontem no Diário Oficial do Município (DOM).
O artigo 3º da medida deixa claro que “fica a expropriante autorizada a invocar caráter de urgência em eventual processo judicial de desapropriação da área descrita” para garantir o funcionamento ininterrupto do serviço. A instalação da futura URM será acompanhada de uma mudança na regra de descarte de resíduos de construção civil, que deverá entrar em vigor possivelmente já a partir do próximo mês e prevê uma sobretaxação de 200% em caso dos detritos estarem misturados com materiais irregulares, como lixo doméstico ou de poda de jardins, como galhos de árvores e mato. Com isso, a taxa paga saltará da média de R$ 300 para R$ 900 por caçamba. “Esse material ‘sujo’ complica muito a operação da usina e reduz a sua vida útil”, justificou o secretário municipal de Serviços Públicos, Ernesto Dimas Paulella.
A atual URM em operação, que recebe cerca de 30 mil toneladas de material por mês, poderia ter a vida útil prolongada entre 10 e 15 anos se a nova regra já tivesse sido adotada no passado, de acordo como secretário. A nova usina, acrescentou, deverá ter um tempo de serviço em torno de 30 anos, apesar de ter uma área em torno de 40% menor em comparação com os 200 mil m2 da atual unidade. O decreto municipal nº 18.167, de 29 de novembro de 2013, estabelece a taxa 4,0180 Unidades Fiscais de Campinas (Ufics) por m3 da caçamba ao utilizar a URM. Com isso, o valor passou a ser R$ 20,49 por metro cúbico desde o último dia 1º, quando entrou em vigor a Ufic de R$ 5,0996.
MUDANÇAS
Para Ernesto Paulella, a sobretaxação tem a finalidade educativa para as 120 empresas cadastradas em Campinas mudarem seus procedimentos na operação, como a colocação de uma lona para tampar as caçambas de entulho, que ficam expostas na rua, e evitar que terceiros façam o descarte irregular no período noturno. Esse é um cuidado extra que terá de ter a participação do proprietário do imóvel que fez a locação e da equipe envolvida na construção ou reforma de imóvel. “Esse é um trabalho que tem que ser feito pelo caçambeiro”, defendeu o secretário de Serviços Públicos. Na opinião do gerente de uma empresa do setor, João Batista Marques, as alterações resultaram em aumentos de custos. “Vamos ser penalizados com uma sobretaxação por uma irregularidade pelas quais, muitas vezes, não somos responsáveis. Usar uma lona de cobertura é difícil porque ela pode ser rasgada fácil pelo material de construção despejado na caçamba”, argumentou.
De acordo com ele, será necessário esperar a alteração entrar em vigor para ver qual será a reação do mercado e discutir se isso será repassado para o cliente. Ernesto Paulella ressaltou que, em caso de falta de acordo com os proprietários das áreas a serem desapropriadas para a instalação da nova URM, a Prefeitura tomará posse de forma litigiosa através de ação na Justiça, possibilidade prevista no decreto de declaração de utilidade pública. “Nós temos pouco mais de seis para fazer a desapropriação, as adequações necessárias e conseguir a licença ambiental da Cetesb”, argumentou.
Para ele, a instalação da nova URM ao lado da atual, que será desativada, deve facilitar da obtenção da autorização junto à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) por já se tratar de uma área impactada.
A usina a ser instalada manterá as finalidades da hoje existente, englobando a reciclagem do material de construção e uso da área como aterro de inertes (descarte de resíduos sólidos que não sofrem decomposição ou transformações químicas). A obra a ser feita, de acordo com o secretário, envolve basicamente a terraplanagem da nova área. Segundo ele, a usina também tem a função de sustentabilidade, com o material reciclado gerado, como areia e pedras de várias granulações e tamanhos, sendo usado em serviços da Prefeitura, além de reduzir a retirada desses materiais, assim como de ferro, das jazidas existentes.
INVESTIMENTO SE PAGA
“A usina recicladora faz o que o mundo busca hoje, que é economia com sustentabilidade. O reaproveitamento de todos os materiais, via de regra, preserva as jazidas existentes para as futuras gerações”, afirmou Ernesto Paulella. Os equipamentos usados na atual URM – e que serão transferidos para a nova – têm capacidade para beneficiar aproximadamente 6,5 mil toneladas de resíduos de construção civil por mês. A areia e a pedra reciclados são usados, por exemplo, para a manutenção de estradas rurais.
O reaproveitamento desses materiais, segundo o secretário, gera uma economia anual de cerca de R$ 15 milhões ao município. “A usina dá um retorno muito rápido, ela se paga rapidamente”, disse ele. O triturador usado na usina foi importado da Áustria há dois anos. O equipamento recebeu um investimento de R$ 10 milhões feito pela Prefeitura a partir de recursos de uma emenda impositiva apresentada por um deputado federal. Ao chegar à URM, por meio das empresas de aluguel de caçamba, os materiais passaram por uma seleção feita por uma cooperativa de material reciclado. A equipe separa os resíduos que podem ser comercializados à parte, como caixas de papelão, plásticos e madeira.
Os resíduos de construção civil vão para o triturador. O ferro presente em vigas, por exemplo, é separado por um eletroímã. Tijolos, blocos e outros materiais são triturados e passam por uma peneira, sendo separados por granulação ou tamanho. Em 2024, a usina processou 79,4 mil toneladas de detritos.
O material levado para o local evita que seja descartado irregularmente em ruas, terrenos, córregos e outros lugares que vão trazer prejuízos ao meio ambiente e às pessoas. A usina emprega em torno de 35 pessoas, sendo 20 da cooperativa de reciclagem e os demais funcionários da unidade. “Os resíduos resultantes do processamento com as máquinas são aplicados em vias de terra na cidade e na composição de materiais para obras de reparos, como nas galerias pluviais, por exemplo”, acrescentou Ernesto Paulella.
A atual URM foi instalada em 1995, quando ele foi secretário de Serviço Públicos na gestão do então prefeito José Roberto Magalhães Teixeira. Além dessa unidade, a Prefeitura tem uma Usina Verde Sustentável de Compostagem, onde são tratados os resíduos orgânicos oriundos de serviços de poda e capinação de áreas verdes municipais e lodo proveniente da Estação de Tratamento e Esgoto. A Prefeitura faz a venda de fertilizante orgânico e cavacos de madeira processados através de leilões. O último foi realizado em novembro, quando a expectativa de arrecadação foi de aproximadamente R$ 131 mil.
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