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Empreendedor nigeriano aposta na reciclagem de pneus para virar pneus velhos em tijolos de borracha em Lagos

Empreendedor nigeriano aposta na reciclagem de pneus para virar pneus velhos em tijolos de borracha em Lagos

Em 1987, cerca de 30 acres de pneus pegaram fogo no Colorado e o combate levou quase uma semana, um marco que empurrou o tema para o centro do debate e acelerou regras e financiamento para reciclagem de pneus.

Com 400 mil pneus estocados e 100 funcionários, o empreendedor nigeriano aposta na reciclagem de pneus para virar pneus velhos em tijolos de borracha em Lagos, com corte em 20 segundos e processamento de 150 pneus por hora

Click Petróleo e Gás - Escrito por Bruno Teles - Publicado em14/02/2026 às 22:11 - Atualizado em14/02/2026 às 22:28 - Ciência e Tecnologia

Empreendedor nigeriano acelera a reciclagem de  pneus em Lagos ao transformar pneus velhos em piso e  tijolos de borracha, com linha industrial, números de capacidade e pontos críticos de energia, saúde pública e escala até 2026.

Na Nigéria, com foco em Lagos, pneus velhos viram criadouro de mosquitos e risco de incêndio, e um empreendedor nigeriano aposta na reciclagem de pneus para tirar borracha dos aterros e transformar resíduos em pisos elásticos, com retirada do aço, trituração e cura em forno por oito horas todo dia

O empreendedor nigeriano Ifedolapo Runsewe, fundadora da Freee Recycle, entrou num setor em que o resíduo é tão comum quanto invisível: pneus velhos abandonados em oficinas, estacionamentos e áreas abertas. Num país onde água parada pode virar foco de mosquito e malária, a reciclagem de pneus passa a ser também uma medida de saúde pública.

O pano de fundo é global, mas o gargalo é local. A indústria fabrica quase 2 bilhões de pneus por ano, enquanto a humanidade descarta cerca de 1 bilhão de pneus por ano, e a maior parte ainda se acumula quando a logística e o custo travam a coleta. Na periferia de Lagos, a borracha vira produto e também vira teste de escala.

Por que pneus velhos viram risco ambiental e sanitário

Pneus velhos não são apenas volume. Quando ficam expostos, acumulam água e podem se tornar criadouro de mosquitos, um problema direto em lugares onde a malária segue pressionando o sistema de saúde.

Em paralelo, depósitos e pilhas a céu aberto criam um risco adicional: incêndios de borracha são difíceis de apagar e podem durar dias.

O histórico internacional ajuda a dimensionar o perigo. No fim do século XX, os Estados Unidos chegaram a acumular bem mais de um bilhão de pneus velhos, e a combinação entre aterro, gases aprisionados e material inflamável gerou episódios críticos.

Em 1987, cerca de 30 acres de pneus pegaram fogo no Colorado e o combate levou quase uma semana, um marco que empurrou o tema para o centro do debate e acelerou regras e financiamento para reciclagem de pneus.

A rota Lagos oficina pátio e a economia do pneu usado
Mais da metade dos carros do país está em Lagos e nos arredores, o que concentra a origem do resíduo e também a oportunidade de captura.

Em oficinas de beira de estrada, mecânicos guardam o que não dá para consertar e vendem para empresas de reciclagem de pneus. É aí que entram coletores como Samuel e lojistas como Adams, que, segundo o relato, recebem cerca de 30 centavos por pneu.

A Freee Recycle opera com um pátio de cerca de 2,5 acres e mantém mais de 400.000 pneus estocados no local, um número que mostra como a reciclagem de pneus é, ao mesmo tempo, indústria e corrida contra o acúmulo.


A empresa afirma reciclar centenas de pneus por dia e ter mais de 100 funcionários em tempo integral, enquanto o modelo de negócio gera cerca de 16 centavos para cada pneu reciclado. Em Lagos, a conta fecha no detalhe, não no slogan.

Da vulcanização ao aço embutido o que torna a reciclagem de pneus complexa
A dificuldade técnica começa na própria razão de existir do produto. Desde o século XIX, com a vulcanização, a borracha ganhou resistência a temperatura e deformação, exatamente o que um pneu precisa para sobreviver a carga, frenagem e asfalto quente.

O problema é que o mesmo pacote de durabilidade vira obstáculo quando o pneu termina a vida útil.

Pneus modernos combinam borracha natural e sintética e ainda carregam reforços de fibras metálicas e plásticas. Por isso, reciclagem de pneus exige separar materiais, reduzir dimensões com controle de poeira e remover metal com precisão.

Sem essa limpeza, o granulado de borracha perde consistência e aumenta o desgaste de máquinas e moldes.

Linha industrial da Freee Recycle do removedor de miçangas ao granulado de 5 milímetros

O primeiro gargalo físico é o aço. Para contornar isso, um dos investimentos centrais foi um removedor de miçangas, usado para retirar os fios de aço em cerca de 20 segundos por  pneu, liberando a borracha para as etapas seguintes.

Depois, os  pneus passam por um equipamento de corte que divide cada unidade em quatro ou cinco pedaços, reduzindo esforço mecânico na trituração.

A planta processa cerca de 150 pneus de carro por hora e segue para a etapa de trituração e moagem. O triturador rasga o material, tambores reduzem ainda mais o tamanho, e peneiras vibratórias, combinadas com grandes aspiradores, evitam que a poeira de borracha se espalhe e comprometa a operação. Partículas com 5 milímetros ou menos seguem adiante; as maiores retornam para novo ciclo, num circuito fechado típico de reciclagem de pneus em escala.

Na sequência, ímãs removem fragmentos metálicos remanescentes e sobra o granulado de borracha, ainda misturado com fibras de reforço, muitas vezes de plástico ou náilon.

A separação final organiza o produto por granulometria: pó para aplicações mais macias, como ginásios e parques infantis, e fragmentos de 3 a 5 milímetros para uso mais resistente em calçadas. É aqui que pneus velhos deixam de ser passivo e viram insumo com especificação.

Como a borracha vira tijolos e pisos e por que a fórmula muda no clima nigeriano
Para transformar granulado em peça, a fábrica aquece a mistura em batedeiras e usa um aglutinante de poliuretano para manter tudo unido.

O ponto crítico é proporção. A fundadora diz que levou tempo para encontrar a relação correta que funcione no clima de savana tropical da Nigéria, um detalhe que muda cura, elasticidade e estabilidade do piso. Na prática, a reciclagem de pneus depende mais do ambiente do que parece.

Os corantes entram para ajustar a cor e a estratégia de custo aparece no molde. Uma camada fina da mistura colorida vai primeiro, e o restante do  tijolo é preenchido com borracha sem tingimento, reduzindo o gasto com pigmento sem perder acabamento.

Depois, as peças são prensadas manualmente, colocadas em bandejas e seguem para o forno, onde secam por até oito horas.

A infraestrutura energética também interfere no ritmo. A rede elétrica pouco confiável obriga a planta a maximizar a energia disponível, e a operação diz gerar internamente cerca de 80% da eletricidade, com grupos geradores a diesel.

Em um dia típico, a produção pode ser suficiente para cobrir aproximadamente uma quadra de tênis, e cada pneu pode render cerca de 25 blocos de borracha no formato conhecido como osso de cachorro, usados em calçadas e áreas de lazer.

Mercado global e os limites da reciclagem de pneus entre energia e emissões
O mercado global de pneus usados movimenta 12 bilhões de dólares, e em economias com regulação mais madura a destinação se diversificou. Nos Estados Unidos, um terço dos pneus usados é queimado para abastecer fornos de cimento e fábricas de papel, outro terço vira superfícies de borracha, e menos de 20% vai para aterro.

Em 2021, o país reduziu o estoque para cerca de 50 milhões, mostrando que política pública e cadeia industrial conseguem mudar o quadro.

Mas há um custo ambiental embutido. O combustível derivado de pneus costuma custar menos que o gás natural e queimar mais limpo que o carvão, ainda assim produz emissões comparáveis a outros combustíveis fósseis.

Métodos como pirólise, em que pneus são aquecidos a temperaturas extremas sem oxigênio, aparecem como alternativa, mas demandam muita energia e deixam margens de lucro pequenas, um dilema recorrente quando se fala em reciclagem de pneus.

Também existe a camada de confiança do consumidor. Diante de preocupações sobre borracha triturada liberar toxinas, uma agência federal dos EUA disse não conseguir provar ausência de riscos à saúde, mas recomendou o óbvio: crianças não devem comer borracha. Ou seja, a borracha como piso precisa de evidência, controle e comunicação clara.

Onde a solução encosta na cidade e o que ainda trava a escala na Nigéria

Os itens mais vendidos da Freee Recycle são pedras de pavimentação instaladas em parques infantis, como em uma escola internacional citada no relato. A vantagem operacional é prática:  pisos modulares permitem reparos e ampliações com remoção e reinstalação das peças, sem quebrar concreto e sem refazer toda a área, um diferencial quando o uso é intenso.

Ainda assim, a fotografia do país segue desafiadora. O descarte de  pneus continua crescendo e a Nigéria aparece entre os 10% piores do mundo em reciclagem e sustentabilidade, o que ajuda a explicar por que um pátio com 400 mil pneus velhos ainda é só uma fração do total. A fundadora afirma que a empresa está perto de se tornar lucrativa e planeja expandir pelo país e para Ruanda, Costa do Marfim, Gana e Quênia, além de mirar outros resíduos, como papel, lixo eletrônico e garrafas PET.

A reciclagem de pneus, no fim, é uma disputa entre dois relógios. Um mede a velocidade do resíduo que entra todos os dias em Lagos. O outro mede a capacidade de cortar, separar e curar borracha com energia cara, aço embutido e poeira que precisa ser controlada.

Se a proposta de transformar pneus velhos em piso parece simples, a execução mostra que o gargalo está em três pontos ao mesmo tempo: coleta regular, processamento com padrão técnico e mercado comprador para a borracha final. É por isso que a história do empreendedor nigeriano chama atenção, não pelo improviso, mas pela tentativa de padronizar uma cadeia que costuma operar no limite.

Na sua rotina, o que você já viu virar problema por causa de pneus velhos acumulados: mosquito, incêndio, entulho em terreno vazio ou descarte em aterro? E se a prefeitura instalasse piso de borracha reciclada em praças e escolas, você confiaria mais na solução ou cobraria testes e fiscalização antes?

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